Biografia

1904 ~ 1963

 

Caricatura de Lamartine por Nássara

Lamartine Babo

Lamartine de Azeredo Babo, compositor, cantor, revistógrafo, humorista e produtor. Nasceu no dia 10/1/1904, Rio de Janeiro, RJ e morreu na mesma cidade no dia 16/6/1963, vítima de enfarte.

Filho de Leopoldo de Azeredo Babo e Bernarda Preciosa Gonçalves de Azeredo Babo, Lamartine que tinha onze irmãos, foi um dos três filhos que chegou a idade adulta, bem como seu irmão Leopoldo (1885-1952) e sua irmã Indiana (1891-1975), pois todos os outros morreram ainda na infância. Mas, mesmo com tantas desgraças, os pais de Lamartine eram pessoas alegres, festeiras e amantes da música, promoviam saraus dos quais participavam Catulo da Paixão Cearense e Ernesto Nazareth; D. Bernarda, sua mãe e suas irmãs tocavam piano e desde criança, Lamartine convivia com a música nas salas de espera dos cinemas, levado por seu pai. Lamartine começou a compor cedo, aos 13 anos de idade. Estudava no Colégio São Bento e lá venceu um concurso de poemas. Entusiasmado com o sucesso, compôs logo em seguida o foxtrote Pandoran e a valsa Torturas de amor.

Em 10 de junho de 1916, seu pai faleceu, e Lamartine e sua mãe foram então morar com Indiana, já casada. Em 1920 Lalá (como era conhecido) saiu do colégio São Bento e, como sua família passava por dificuldades financeiras, teve que parar de estudar para trabalhar como office-boy da Light. Nas horas vagas, Lalá compunha e se entrosava com artistas e jornalistas da época. Em 1923 Lamartine conheceu Alda, a grande paixão de sua vida. Namoraram durante dois anos, até que, sem nenhuma explicação, Alda viajou e comunicou o rompimento do namoro por carta, ao compositor, que ficou visivelmente abalado, principalmente ao saber que Alda suspeitava estar com tuberculose.

No ano seguinte, Lalá trocou o emprego da Light por outro numa Companhia de Seguros, que durou até o dia em que seu chefe flagrou-o batucando na mesa e mordendo a língua compulsivamente, (seu cacoete mais conhecido ao compor) durante o expediente. Desempregado, passou a dedicar-se mais ao teatro de revistas e ao jornalismo. A convivência com Eduardo Souto, Bastos Tigre e outros revistógrafos abriu caminho para que trabalhasse apenas com o teatro musicado e o jornalismo, escrevendo em várias revistas.

Em 1929, Lamartine aproximou-se do Bando de Tangarás, conjunto musical composto por Noel, João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito e tornou-se um dos adendos do grupo que, no total, gravou oito músicas de Lalá. Ainda nesse mesmo período, estreou na rádio PRB-7, Rádio Educadora. Foi o primeiro de vários programas: Horas Lamartinescas Radioletes, A canção do dia, Perfis e Perfídias, O clube da meia-noite, (na Rádio Mayrink Veiga), que continuou depois com o nome de Clube dos fantasmas (na Rádio Nacional), Vida pitoresca e musical dos compositores, sendo que, o primeiro compositor abordado por Lamartine foi ele mesmo, por sugestão de Almirante. Assim sendo, contou uma passagem ocorrida na sua estréia no rádio: "... quando acabei de cantar, alguém me disse assim: ‘Sr. Lamartine, estão lhe chamando ao telefone.’ E eu fui radiante atender ao chamado. E uma voz de homem :

- Alô, que fala?

- É da Rádio Educadora

- Quero falar com o Sr. Lamostine

- Não é Lamostine, meu senhor, é Lamartine. Sou eu mesmo.

- Ah! É o senhor... muito bem. Olhe, sr. Lamartine, vá cantar no rádio que o parta..."

Um outro programa que fez muito sucesso foi o Trem da alegria, ao lado do radialista Héber de Bôscoli, que era o maquinista e sua esposa, Yara Salles, a foguista. Lalá apresentava-se como guarda-freios do trem. Sendo os três muito magros, ficaram conhecidos como o Trio de Osso, fazendo uma alusão ao famoso trio da época, o Trio de Ouro. Foi nesse programa que Héber, certa vez, desafiou Lalá a fazer um hino para cada clube de futebol do Rio de Janeiro. Lalá passou a apresentar, então os hinos que ia compondo:

Hino do Flamengo:

Uma vez Flamengo,

Sempre Flamengo

Flamengo sempre eu hei de ser

É meu maior prazer

Vê-lo brilhar

Seja na Terra

Seja no mar

Vencer, vencer, vencer

Uma vez Flamengo

Flamengo até morrer!

 

Na regata ele me mata

Me maltrata, me arrebata

Que emoção no coração

Consagrado no gramado

Sempre amado, o mais cotado

Nos Fla-Flus é o ai, Jesus...

 

Eu teria um desgosto profundo

Se faltasse o Flamengo no mundo!

Ele vibra, ele é fibra

Muita libra já pesou

Flamengo até morrer eu sou!

 

Hino do Fluminense:

Sou tricolor de coração

Sou do clube tantas vezes campeão

Fascina pela sua disciplina

O Fluminense me domina

Eu tenho amor ao tricolor...

 

Salve o querido pavilhão

Das três cores que traduzem tradição

A paz, a esperança

E o vigor unido e forte

Pelo esporte eu sou é tricolor...

 

Vence o Fluminense

Com o verde da esperança

Pois quem espera sempre alcança

Clube que orgulha o Brasil

Retumbante de glórias

E vitórias mil...

 

Vence o Fluminense

Com o sangue do encarnado

Com calor e com vigor

Faz a torcida querida

Vibrar de emoção

O tri-campeão

 

Vence o Fluminense

Usando a fidalguia

Branco é paz e harmonia

Brilha com o sol da manhã

Com a luz de um refletor

Salve o Tricolor!

 

Hino do Vasco:

Vamos todos cantar de coração

A Cruz de Malta é o teu pendão!

Tens o nome do heróico português

Vasco da Gama a tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz...

Norte a Sul, Norte a Sul destes Brasis

Tua estrela na Terra a brilhar

Ilumina o mar...

 

No atletismo és um braço

No remo és imortal

No futebol és o traço

De união Brasil-Portugal

 

Hino do América:

Hei de torcer, torcer, torcer

Hei de torcer até morrer

Morrer, morrer

Pois a torcida americana é toda assim

A começar por mim

A cor do pavilhão

É a cor do nosso coração

 

Nos nossos dias de emoção

Toda torcida cantará esta canção:

Tralalá... lá... lá... lá...

Tralalá... lá... lá... lá...

Tralalá... lá... lá... lá...

 

Campeões de 13... 16... e 22

Tralálá

Temos muitas glórias

Surgirão outras depois

Tra...lá...lá....

Campeões com a pelota nos pés

Fabricamos aos montes aos dez...

Nós inda queremos muito mais

América! Unido vencerás...!

 

Hino do Botafogo:

Botafogo! Botafogo!

Campeão de 1910!

Foste um herói em cada jogo

Botafogo!

Por isso é que tu és

E hás de ser

Nosso imenso prazer

Tradições aos milhões

Tens também

Tu és o glorioso

Não podes perder

Perder pra ninguém

 

Noutros esportes tua fibra

Está presente

Honrando as cores do Brasil

De nossa gente

Na estrada dos louros

Num facho de luz

Tua estrela solitária te conduz!

 

Dos vários concursos promovidos pelos órgãos públicos, Lamartine só ganhou dois: em 1930, o concurso da Revista o Cruzeiro, com o samba Bota o Feijão no fogo e no ano seguinte, num concurso da Cada Edison, ganhou o primeiro lugar com a marcha Bonde errado, de sua autoria mas, não se sabe porquê, a marcha saiu no nome de duas de suas colegas: Célia Borchert e Áurea Borges de Souza. Lalá foi tornando-se conhecido graças ao seu bom humor e à facilidade de fazer piadas e trocadilhos. Saiu de casa e foi morar com uns amigos, para ver se tinha maior liberdade. Foi quando reencontrou Alda, sua antiga namorada e reataram o namoro. O problema é que Lamartine estava namorando Baby (Bebinha), que era uma parente distante e com quem relacionou-se por dezessete anos, e não teve coragem de dizer para nenhuma das duas que mantinha relações com ambas, levando em frente os dois relacionamentos até que Alda descobriu e rompeu definitivamente com o compositor.

Lamartine foi ficando cada vez mais conhecido, seu nome já era comum nos jornais e revistas. Fez parte do famoso Ases do Samba, ao lado de Francisco Alves e Mário Reis. Os dois cantavam e Lamartine contava piadas. Em 1932 foi consagrado com O teu cabelo não nega e, no ano seguinte, com Linda Morena. Sempre fora magérrimo, o que proporcionou a confecção de inúmeras caricaturas (no início de 1949 um grande incêndio destruiu o arquivo do compositor, onde se encontravam guardadas, entre outras preciosidades, os originais de O teu cabelo não nega, Serra da Boa Esperança e ainda a coleção de caricaturas de Lalá, que era imensa e muito prezada por ele) e muitas piadas sobre esse assunto, a maioria delas vindas do próprio compositor. Certa vez, ao ser convidado para ser juiz, num jogo de futebol, disse: "- Aceito, desde que não vente". Num outro momento disse : "-Não foi à toa que Deus me fez magro assim - homem de poucos quilos, poeta de muitos quilates..." Apresentado por um amigo a um admirador: - Este é o grande Lamartine Babo, em carne e osso. E Lalá: "-Exagero, exagero. Em osso só, em osso só". Várias vezes declarou também que não dava fotografia a suas fãs. Dava radiografias. Já no fim da vida, quando descobriu que a entrevista que dera seria preterida pela cobertura que a TV fizera sobre a chegada de Tom Jobim dos Estados Unidos, Lalá comentou: "- Quer dizer então que na verdade eu estou um tom abaixo?" E a melhor, para terminar. Certa vez, ao entregar um telegrama no guichê dos Correios, notou que um dos funcionários batia com o lápis, em código Morse, para o colega, referindo-se a Lamartine: "- Magro e feio". E o Lalá, de lápis na mão, também bateu em Morse: "- Magro, feio e ex-telegrafista".

Em 1947 Lamartine conheceu Maria José, com quem se casou em 19 de março de 1951, numa cerimônia fechada, escondido de seus amigos e com ela viveu até o fim de sua vida. Justificou-se depois, disse que não convidou ninguém porque não ia ter lugar na igreja para tanta gente...

Desestimulado com o rumo que as competições carnavalescas tomaram, Lalá parou de compor para carnaval, e assumiu novos compromissos, como por exemplo na UBC (União Brasileira de Compositores), onde foi suplente de diretor (1942), secretário (1949/1950), presidente (1951/1952), tesoureiro (de 1955 a 1958) e, de 1958 até sua morte, em 1963, foi indicado para conselheiro permanente da UBC. Passou a trabalhar também para a televisão, onde fazia vários programas, entre eles o Baú do Lamartine e o Carnaval do passado. A partir da década de 60 começou a produzir discos, ligado à gravadora Copacabana.

Em fevereiro de 1963 Lalá teve um enfarte, mas conseguiu recuperar-se. Porém, estava por vir uma das maiores emoções de sua vida. Carlos Machado preparou um grande show baseado na vida e obra de Lamartine. Este, por sua vez, tentava convencer Carlos que sua vida e obra não davam assunto para um show, e começou a freqüentar os ensaios. Muito emocionado, poucos dias depois teve o segundo enfarte, que foi fatal.

Lamartine Babo se tornou o rei do carnaval. Suas marchinhas e sambas carnavalescos até hoje influenciam compositores.

 

Principais sucessos:

  • A. B. Surdo, Noel Rosa e Lamartine Babo, 1930

  • A.E.I.O.U., Noel Rosa e Lamartine Babo, 1931

  • As cinco estações do ano, Lamartine Babo, 1933

  • A tua vida é um segredo, Lamartine Babo, 1932

  • Aí, hein!, Lamartine Babo e Paulo Valença, 1932

  • Alma dos violinos, Lamartine Babo e Alcir Pires Vermelho, 1942
  • Canção para inglês ver, Lamartine Babo, 1931

  • Cantores do rádio, L. Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro, 1936

  • Chegou a hora da fogueira, Lamartine Babo, 1933 12

  • Dançando com lágrimas nos olhos (Dancing with tears in my eyes), Joe Burke, Al Dubin e versão de Lamartine Babo, 1931

  • Dia de jejum, Lamartine Babo e Lyrio Panicalli , 1963

  • Eu sonhei que tu estavas tão linda, L. Babo e Francisco Mattoso, 1941 Eu sonhei que tu estavas tão linda com Francisco Alves (1941)

  • Grau dez, Ary Barroso e Lamartine Babo, 1934

  • Hino do carnaval brasileiro, Lamartine Babo, 1938

  • História do Brasil, Lamartine Babo, 1933

  • Infelizmente, Lamartine Babo e Ary Pavão, 1932

  • Isto é lá com Santo Antônio, Lamartine Babo, 1934

  • Joujoux e Balangandãs, Lamartine Babo, 1939

  • Linda morena, Lamartine Babo, 1932
  • Mais uma valsa, mais uma saudade, L. Babo e J. Maria de Abreu, 1937

  • Marchinha do grande galo, Lamartine Babo e Paulo Barbosa, 1935

  • Minha cabrocha, Lamartine Babo, 1959

  • Moleque indigesto, Lamartine Babo, 1933

  • Na virada da montanha, Ary Barroso e Lamartine Babo, 1935

  • No rancho fundo, Ary Barroso e Lamartine Babo, 1930 No rancho fundo com Elisa Coelho (1931)

  • O sol nasceu pra todos, Lamartine Babo, 1933

  • O teu cabelo não nega, Lamartine Babo e Irmãos Valença, 1931 O teu cabelo não nega com Castro Barbosa (1931)
  • Perfídia, Alberto Dominguez e versão de Lamartine Babo, 1941

  • Pistolões, Lamartine Babo, 1955

  • Rasguei a minha fantasia, Lamartine Babo, 1934

  • Ressurreição dos velhos carnavais, Lamartine Babo, 1960
  • Ride palhaço, Lamartine Babo, 1933

  • Serra da Boa Esperança, Lamartine Babo, 1937

  • Uma andorinha não faz verão, Lamartine Babo e João de Barro, 1931,

entre outros...


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